quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Relato de uma mãe que lutou contra o câncer de uma Filha

 
 
Por Patricia Moterani

Sempre quis ser mãe. Casei aos 17 anos e com essa idade já pensava em ter filhos. Engravidei e abortei espontaneamente quatro vezes em sete anos. Clinicamente, nem eu nem meu marido tínhamos problemas de fertilidade. Como nenhum médico conseguia explicar o motivo dos abortos, perdi a esperança de realizar meu sonho. Aos 24 anos, sofrendo de enjoos e desconfortos, mas menstruando normalmente, marquei uma consulta com um clínico geral. Saí do consultório com receitas para remédios contra gases, que tomei por três meses. Até que minha tia, desconfiada de uma gravidez, me levou a um ginecologista. Foi quando vi o que parecia impossível se realizar: eu estava grávida de cinco meses. Levei um grande susto, mas a alegria foi imensa.
Saí do hospital dando pulos de felicidade. Mas, ainda que o bebê estivesse bem, a gravidez era de risco por causa dos abortos anteriores. O médico que me acompanhou durante o pré-natal recomendou repouso absoluto. Eu tinha um restaurante e parei de trabalhar; passei a coordená-lo a distância. Minha intuição e meu desejo diziam que seria uma menina. Tive essa certeza 15 dias antes de a Maria Fernanda vir ao mundo. O parto não foi fácil. Ela nasceu muito roxinha porque demorou para sair da minha barriga. Estava com a cabeça para cima, e não para baixo, como deveria, e o cordão umbilical estava enrolado em seu pescoço. Como consequência, enquanto a maioria das mulheres leva até dez pontos em uma cesárea, eu levei 27. Apesar disso, tudo correu bem. Ela nasceu com 39 centímetros, cabeludinha, com 3,940 kg — uma criança linda.
Maria Fernanda é a minha única filha, minha obra perfeita. Aos 3 anos já sabia ler e escrever. Jamais foi uma criança retraída. Tinha muitos amigos e participava de todas as festinhas da escola, adorava se fantasiar e acreditou em Papai Noel até os 9 anos. Durante essa fase da sua infância, eu também estava bem profissionalmente. Tão bem que percebi que deveria fazer alguma coisa pelo próximo e passei a ajudar instituições de crianças com câncer — uma escolha aleatória, que nem sei explicar por que, já que o mais natural teria sido eu me aproximar de portadores de síndrome de Down, uma vez que tenho um irmão com essa síndrome.
Tudo correu muito bem até os oito anos e meio da minha filha. Em outubro de 1997, ao dar banho e lavar seus cabelos, senti um carocinho do tamanho de um feijão na cabeça dela. Meu coração apertou. Perguntei a ela se tinha caído e batido a cabeça em algum lugar da escola e ela me disse que não. Comentei com o meu marido, que não deu bola. Maria Fernanda também não ligou — sentia-se bem, sem nenhum sinal de que pudesse estar doente. Alimentava-se e brincava com o mesmo pique de sempre. Na verdade, ninguém da minha família ligou para o fato. Todos insistiam que eu estava fazendo drama, mas a famosa intuição de mãe não me deixava em paz. Eu chorava sozinha de preocupação.
Marquei consulta com um neurologista. Segundo ele, o carocinho era normal e não indicava problema. Não fiquei convencida. Fui a outro médico, que deu o mesmo diagnóstico do primeiro. Fui a um terceiro, que teve a mesma impressão dos primeiros, mesmo depois de tomografias e ressonâncias magnéticas. Foi assim com mais quatro médicos. Até que com o oitavo, que também dizia não ser nada, sugeri que tirássemos o carocinho alegando ser um caso de estética. Disse: ‘Doutor, ela faz natação, balé e usa touca, imagine isso aparecendo entre os amiguinhos; é provável que eles tirem sarro’. O caroço não tinha essa proporção, mas o médico, mais por cansaço do que por preocupação, topou fazer uma cirurgia para retirá-lo.
Antes da operação, saímos de férias. Lembro que, quando olhava para ela na praia, sentia algo dentro de mim doer, me escapar pelas mãos. Eu não compartilhava minha dor com ninguém. A cirurgia foi simples. Quando terminou, o médico me disse: ‘Mãe, vou mandar o carocinho para a biópsia porque é uma questão de protocolo, mas fique bem tranquila, isso não vai dar em nada. Se fosse alguma coisa, nós teríamos percebido agora’. Depois da cirurgia, relaxei. Dez dias depois, voltamos ao consultório para retirar os pontos. Na sala de espera, notei que o clima estava diferente. A secretária, que costumava ser brincalhona, não estava falando tão animadamente com a gente.
Quando entramos, o doutor estava sério. Enquanto ele tirava os pontos da cabeça dela, me perguntou quantas promessas eu havia feito para que não fosse nada. Respondi: muitas. Ele fechou os olhos. A minha espinha gelou. Ele pediu, então, que a Maria Fernanda saísse da sala, porque tinha uma coisa importante para conversar comigo e com o pai dela. Ele não teve coragem de falar. Apenas empurrou um papel para mim. Eu abri e, quando li neoplasia maligna: sarcoma de Ewing, apertei forte a mão do meu marido, meu coração e minha perna doeram, e disse, já chorando: ‘Imagine, doutor, vocês erraram feio, vocês me garantiram que não era nada’. O médico explicou que era um câncer raro, que costuma dar em braços e pernas e se manifesta no estágio final da doença. Graças a Deus, a doença estava no início, e depois de mandar repetir o exame da biópsia quatro vezes, porque eu me recusava a acreditar no diagnóstico, começamos uma corrida contra o tempo.
O tumor já havia começado a corroer a primeira calota craniana e, se eu não tivesse insistido tanto nessa investigação, a teria perdido em seis meses. Quando soube da doença, fiquei desesperada. Pensei em colocar a Maria Fernanda num carro e jogá-lo, comigo dentro, de um penhasco. Por causa do meu trabalho voluntário, sabia o que era passar por uma quimioterapia. Não suportava pensar na minha filha nessa situação. Jamais imaginei ser possível sentir tanta dor. Mas logo voltei a mim, percebi que não tinha esse direito, e decidi que lutaríamos juntas e vitoriosas.

Fomos ao melhor oncologista do país. Foi no consultório desse médico que ela soube o que estava acontecendo. Ele foi muito insensível. Usou as seguintes palavras: ‘Sua doença é muito grave, você vai perder seu cabelo e provavelmente os seus dentes, e eu não sei se você vai ter cura. Você vai vomitar bastante e passar muito mal’. Nós três começamos a chorar compulsivamente, e na minha cabeça só vinham imagens do nascimento dela, dos primeiros passos, da primeira vez em que ela me chamou de mãe, do primeiro dia na escola. Foi horrível. Eu olhava para ela e me perguntava até quando ela estaria ao meu lado, ao mesmo tempo em que não admitia perdê-la.
A primeira sessão de quimioterapia foi devastadora. Maria Fernanda teve reações fortes: perdeu momentaneamente os movimentos das pernas e sua mandíbula travou. Ela ficou nove dias internada e perdeu oito quilos. Foi muito impressionante vê-la passar por tudo aquilo, sendo que no dia anterior estava bem fisicamente. Ela tinha crises de vômito muito fortes e a enfermeira me dizia que não havia nada a ser feito, que dali em diante a coisa só pioraria. O meu marido entrou em desespero e foi embora do hospital. Decidi que trocaria de médico.
A pedido desse segundo doutor, um anjo que ficou conosco até o fim, comecei a abraçá-la e apalpá-la muito. Era um momento de carinho entre nós, claro, mas a cada abraço eu estava também procurando um possível novo tumor. Bloqueei qualquer pensamento que a excluísse do meu futuro. Continuava tentando adivinhar o que ela seria quando crescesse e cheguei a apostar que optaria pela medicina, tamanha foi sua imersão no entendimento da doença. Quando o cabelo dela começou a cair, me senti dilacerada. Engolia seco ao ver aquele punhado de fios se soltarem, mas, por incrível que pareça, ela manteve o bom humor e me disse que o lado bom seria a economia com xampu. Chegou a dizer também que estava careca de saber como seria o tratamento dela. Isso me fazia rir. Ao mesmo tempo, achava que ela estava mascarando sua dor. Durante todo o tempo, uma não quis mostrar à outra o que realmente sentia.
Meu casamento mudou. Maria Fernanda passou a dormir comigo na cama. Meu marido e eu não conversávamos sobre a dimensão de tudo aquilo. Tanto que só soube depois do fim do tratamento que ele não acreditava que ela sobreviveria. Eu o proibi de chorar na frente dela. Eu chorava sempre sozinha, em casa ou no carro, a caminho do hospital. Viajava de São Paulo para Suzano, onde ficava meu restaurante, todos os dias. Não larguei o trabalho porque não queria que nada faltasse à minha filha. Dormia de duas a três horas por noite — perdi para sempre o hábito de dormir. Ela continuou matriculada na escola e ia quando conseguia. Quando chegavam as festinhas, eu rezava para que a peruca não caísse ou se deslocasse da cabecinha dela.
Resolvi distraí-la dando novos brinquedos a cada sessão de quimioterapia. Enquanto as meninas da idade dela brincavam de Barbie, ela preferia a boneca Susi, pois dizia que seu cabelo não embaraçava. Durante os dois anos e meio de tratamento, comprei cerca de 140 bonecas e todos aqueles complementos que eram lançados, como casa da Susi, moto da Susi, etc. Às vezes ela ganhava até três bonecas por sessão. Sempre era uma alegria imensa: ela passava horas trocando as roupinhas e penteando os cabelos delas, com muito cuidado. As Susis acabaram virando um símbolo da nossa luta.
Nesse período, fazíamos exames a cada três meses para checar a eficiência dos remédios. A cada resultado, uma boa notícia. Aos poucos, ela foi vencendo o câncer. Minha memória mais emocionante é a do dia em que o médico me chamou e disse que precisávamos conversar. Falou que tinha uma boa e uma má notícia. A má era que não iríamos mais nos ver. Entrei em desespero achando que ele mudaria de hospital. Ele repetiu que não iríamos mais nos ver, e que essa era também a boa notícia. Demorei alguns segundos até entender que o sofrimento tinha acabado. Respirei fundo e comecei a chorar. Maria Fernanda estava curada. Não havia mais vestígios da doença nela. Minha vontade era pular no pescoço dele e abraçá-lo, gritar, ligar para toda a minha família, beijar os enfermeiros. Fiquei eufórica. Do mesmo jeito que jamais pensei que sentiria tanta dor, não achei que fosse possível sentir tamanha alegria. Corri para o quarto, onde estavam Maria Fernanda e meu marido, e gritando contei que a luta tinha chegado ao fim. Todo mundo chorou, a equipe médica aplaudiu e a minha filha saiu do hospital com buquês de flores.
O tipo de câncer dela, na calota craniana, foi o 11o a ter cura no mundo inteiro. A notícia foi uma tremenda surpresa. Pelo protocolo, ela teria de ter feito pelo menos 56 sessões de quimioterapia, mas se curou na 48a. Quando finalmente esse martírio chegou ao fim, Maria Fernanda tinha 11 anos. A doença não afetou seu desenvolvimento — quem faz quimioterapia pode ficar estéril e não crescer muito. Mas minha filha mede 1,68 m de altura e tem o aparelho reprodutor perfeito. Está noiva e cursa o quarto ano da faculdade de direito. As únicas sequelas são um problema na mandíbula, que ainda trava de vez em quando, e a visão, afetada por seis graus de miopia e hipermetropia.
Às vésperas do aniversário dela de 21 anos, no início deste ano, estávamos meio brigadas, uma coisa boba entre mãe e filha. Tive a ideia de fazer uma surpresa. Resolvi restaurar toda a coleção de Susis, que hoje conta com umas 180 bonecas, para dar de presente a ela. Liguei para a fabricante do brinquedo para saber onde isso poderia ser feito e acabei contando minha história. A empresa resolveu fazer uma homenagem e criou uma boneca especialmente para a Maria Fernanda. Mandei como exemplo uma foto dela em sua festa de 15 anos e a Susi batizada em seu nome usa a mesma roupa que minha filha usou nesta data. Juntei essa boneca ao restante da coleção restaurada, e Maria Fernanda chorou de emoção ao vê-las.
Eu mudei bastante depois dessa experiência. Meu casamento acabou há poucos meses. A doença da nossa filha fez com que começássemos a nos ver mais como amigos do que como um casal. Também sinto que sou menos fútil. Embora tivesse contato com esse tipo de tristeza, a dimensão exata dessa dor ficou palpável quando aconteceu comigo. Hoje sei que cada um de nós tem uma missão aqui. Continuo ajudando famílias de crianças com câncer e a Maria Fernanda entrou nessa comigo. Como minha dor durante essa luta foi silenciosa, minha válvula de escape foi escrever um diário. Ele virou um livro e vai ser distribuído nas instituições que ajudo. Quero que outras mães não deixem de acreditar que seus filhos podem sair vivos e saudáveis desse sofrimento.”

2 comentários:

Vera Lúcia disse...

Olá ANALUZ,
Fiquei emocionada com o sofrimento e a luta desta mãe.
Que graça ela alcançou! Talvez pela fé e por merecimento.

Sabe que também coloquei este papel noel voador em meu blog? A turma está adorando!

Beijos.

Arione Torres disse...

Oi querida AnaLuz, como você está? Está melhor?
Te desejo um excelente final de semana. Bjus e fica com Deus...

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Relato de uma mãe que lutou contra o câncer de uma Filha

 
 
Por Patricia Moterani

Sempre quis ser mãe. Casei aos 17 anos e com essa idade já pensava em ter filhos. Engravidei e abortei espontaneamente quatro vezes em sete anos. Clinicamente, nem eu nem meu marido tínhamos problemas de fertilidade. Como nenhum médico conseguia explicar o motivo dos abortos, perdi a esperança de realizar meu sonho. Aos 24 anos, sofrendo de enjoos e desconfortos, mas menstruando normalmente, marquei uma consulta com um clínico geral. Saí do consultório com receitas para remédios contra gases, que tomei por três meses. Até que minha tia, desconfiada de uma gravidez, me levou a um ginecologista. Foi quando vi o que parecia impossível se realizar: eu estava grávida de cinco meses. Levei um grande susto, mas a alegria foi imensa.
Saí do hospital dando pulos de felicidade. Mas, ainda que o bebê estivesse bem, a gravidez era de risco por causa dos abortos anteriores. O médico que me acompanhou durante o pré-natal recomendou repouso absoluto. Eu tinha um restaurante e parei de trabalhar; passei a coordená-lo a distância. Minha intuição e meu desejo diziam que seria uma menina. Tive essa certeza 15 dias antes de a Maria Fernanda vir ao mundo. O parto não foi fácil. Ela nasceu muito roxinha porque demorou para sair da minha barriga. Estava com a cabeça para cima, e não para baixo, como deveria, e o cordão umbilical estava enrolado em seu pescoço. Como consequência, enquanto a maioria das mulheres leva até dez pontos em uma cesárea, eu levei 27. Apesar disso, tudo correu bem. Ela nasceu com 39 centímetros, cabeludinha, com 3,940 kg — uma criança linda.
Maria Fernanda é a minha única filha, minha obra perfeita. Aos 3 anos já sabia ler e escrever. Jamais foi uma criança retraída. Tinha muitos amigos e participava de todas as festinhas da escola, adorava se fantasiar e acreditou em Papai Noel até os 9 anos. Durante essa fase da sua infância, eu também estava bem profissionalmente. Tão bem que percebi que deveria fazer alguma coisa pelo próximo e passei a ajudar instituições de crianças com câncer — uma escolha aleatória, que nem sei explicar por que, já que o mais natural teria sido eu me aproximar de portadores de síndrome de Down, uma vez que tenho um irmão com essa síndrome.
Tudo correu muito bem até os oito anos e meio da minha filha. Em outubro de 1997, ao dar banho e lavar seus cabelos, senti um carocinho do tamanho de um feijão na cabeça dela. Meu coração apertou. Perguntei a ela se tinha caído e batido a cabeça em algum lugar da escola e ela me disse que não. Comentei com o meu marido, que não deu bola. Maria Fernanda também não ligou — sentia-se bem, sem nenhum sinal de que pudesse estar doente. Alimentava-se e brincava com o mesmo pique de sempre. Na verdade, ninguém da minha família ligou para o fato. Todos insistiam que eu estava fazendo drama, mas a famosa intuição de mãe não me deixava em paz. Eu chorava sozinha de preocupação.
Marquei consulta com um neurologista. Segundo ele, o carocinho era normal e não indicava problema. Não fiquei convencida. Fui a outro médico, que deu o mesmo diagnóstico do primeiro. Fui a um terceiro, que teve a mesma impressão dos primeiros, mesmo depois de tomografias e ressonâncias magnéticas. Foi assim com mais quatro médicos. Até que com o oitavo, que também dizia não ser nada, sugeri que tirássemos o carocinho alegando ser um caso de estética. Disse: ‘Doutor, ela faz natação, balé e usa touca, imagine isso aparecendo entre os amiguinhos; é provável que eles tirem sarro’. O caroço não tinha essa proporção, mas o médico, mais por cansaço do que por preocupação, topou fazer uma cirurgia para retirá-lo.
Antes da operação, saímos de férias. Lembro que, quando olhava para ela na praia, sentia algo dentro de mim doer, me escapar pelas mãos. Eu não compartilhava minha dor com ninguém. A cirurgia foi simples. Quando terminou, o médico me disse: ‘Mãe, vou mandar o carocinho para a biópsia porque é uma questão de protocolo, mas fique bem tranquila, isso não vai dar em nada. Se fosse alguma coisa, nós teríamos percebido agora’. Depois da cirurgia, relaxei. Dez dias depois, voltamos ao consultório para retirar os pontos. Na sala de espera, notei que o clima estava diferente. A secretária, que costumava ser brincalhona, não estava falando tão animadamente com a gente.
Quando entramos, o doutor estava sério. Enquanto ele tirava os pontos da cabeça dela, me perguntou quantas promessas eu havia feito para que não fosse nada. Respondi: muitas. Ele fechou os olhos. A minha espinha gelou. Ele pediu, então, que a Maria Fernanda saísse da sala, porque tinha uma coisa importante para conversar comigo e com o pai dela. Ele não teve coragem de falar. Apenas empurrou um papel para mim. Eu abri e, quando li neoplasia maligna: sarcoma de Ewing, apertei forte a mão do meu marido, meu coração e minha perna doeram, e disse, já chorando: ‘Imagine, doutor, vocês erraram feio, vocês me garantiram que não era nada’. O médico explicou que era um câncer raro, que costuma dar em braços e pernas e se manifesta no estágio final da doença. Graças a Deus, a doença estava no início, e depois de mandar repetir o exame da biópsia quatro vezes, porque eu me recusava a acreditar no diagnóstico, começamos uma corrida contra o tempo.
O tumor já havia começado a corroer a primeira calota craniana e, se eu não tivesse insistido tanto nessa investigação, a teria perdido em seis meses. Quando soube da doença, fiquei desesperada. Pensei em colocar a Maria Fernanda num carro e jogá-lo, comigo dentro, de um penhasco. Por causa do meu trabalho voluntário, sabia o que era passar por uma quimioterapia. Não suportava pensar na minha filha nessa situação. Jamais imaginei ser possível sentir tanta dor. Mas logo voltei a mim, percebi que não tinha esse direito, e decidi que lutaríamos juntas e vitoriosas.

Fomos ao melhor oncologista do país. Foi no consultório desse médico que ela soube o que estava acontecendo. Ele foi muito insensível. Usou as seguintes palavras: ‘Sua doença é muito grave, você vai perder seu cabelo e provavelmente os seus dentes, e eu não sei se você vai ter cura. Você vai vomitar bastante e passar muito mal’. Nós três começamos a chorar compulsivamente, e na minha cabeça só vinham imagens do nascimento dela, dos primeiros passos, da primeira vez em que ela me chamou de mãe, do primeiro dia na escola. Foi horrível. Eu olhava para ela e me perguntava até quando ela estaria ao meu lado, ao mesmo tempo em que não admitia perdê-la.
A primeira sessão de quimioterapia foi devastadora. Maria Fernanda teve reações fortes: perdeu momentaneamente os movimentos das pernas e sua mandíbula travou. Ela ficou nove dias internada e perdeu oito quilos. Foi muito impressionante vê-la passar por tudo aquilo, sendo que no dia anterior estava bem fisicamente. Ela tinha crises de vômito muito fortes e a enfermeira me dizia que não havia nada a ser feito, que dali em diante a coisa só pioraria. O meu marido entrou em desespero e foi embora do hospital. Decidi que trocaria de médico.
A pedido desse segundo doutor, um anjo que ficou conosco até o fim, comecei a abraçá-la e apalpá-la muito. Era um momento de carinho entre nós, claro, mas a cada abraço eu estava também procurando um possível novo tumor. Bloqueei qualquer pensamento que a excluísse do meu futuro. Continuava tentando adivinhar o que ela seria quando crescesse e cheguei a apostar que optaria pela medicina, tamanha foi sua imersão no entendimento da doença. Quando o cabelo dela começou a cair, me senti dilacerada. Engolia seco ao ver aquele punhado de fios se soltarem, mas, por incrível que pareça, ela manteve o bom humor e me disse que o lado bom seria a economia com xampu. Chegou a dizer também que estava careca de saber como seria o tratamento dela. Isso me fazia rir. Ao mesmo tempo, achava que ela estava mascarando sua dor. Durante todo o tempo, uma não quis mostrar à outra o que realmente sentia.
Meu casamento mudou. Maria Fernanda passou a dormir comigo na cama. Meu marido e eu não conversávamos sobre a dimensão de tudo aquilo. Tanto que só soube depois do fim do tratamento que ele não acreditava que ela sobreviveria. Eu o proibi de chorar na frente dela. Eu chorava sempre sozinha, em casa ou no carro, a caminho do hospital. Viajava de São Paulo para Suzano, onde ficava meu restaurante, todos os dias. Não larguei o trabalho porque não queria que nada faltasse à minha filha. Dormia de duas a três horas por noite — perdi para sempre o hábito de dormir. Ela continuou matriculada na escola e ia quando conseguia. Quando chegavam as festinhas, eu rezava para que a peruca não caísse ou se deslocasse da cabecinha dela.
Resolvi distraí-la dando novos brinquedos a cada sessão de quimioterapia. Enquanto as meninas da idade dela brincavam de Barbie, ela preferia a boneca Susi, pois dizia que seu cabelo não embaraçava. Durante os dois anos e meio de tratamento, comprei cerca de 140 bonecas e todos aqueles complementos que eram lançados, como casa da Susi, moto da Susi, etc. Às vezes ela ganhava até três bonecas por sessão. Sempre era uma alegria imensa: ela passava horas trocando as roupinhas e penteando os cabelos delas, com muito cuidado. As Susis acabaram virando um símbolo da nossa luta.
Nesse período, fazíamos exames a cada três meses para checar a eficiência dos remédios. A cada resultado, uma boa notícia. Aos poucos, ela foi vencendo o câncer. Minha memória mais emocionante é a do dia em que o médico me chamou e disse que precisávamos conversar. Falou que tinha uma boa e uma má notícia. A má era que não iríamos mais nos ver. Entrei em desespero achando que ele mudaria de hospital. Ele repetiu que não iríamos mais nos ver, e que essa era também a boa notícia. Demorei alguns segundos até entender que o sofrimento tinha acabado. Respirei fundo e comecei a chorar. Maria Fernanda estava curada. Não havia mais vestígios da doença nela. Minha vontade era pular no pescoço dele e abraçá-lo, gritar, ligar para toda a minha família, beijar os enfermeiros. Fiquei eufórica. Do mesmo jeito que jamais pensei que sentiria tanta dor, não achei que fosse possível sentir tamanha alegria. Corri para o quarto, onde estavam Maria Fernanda e meu marido, e gritando contei que a luta tinha chegado ao fim. Todo mundo chorou, a equipe médica aplaudiu e a minha filha saiu do hospital com buquês de flores.
O tipo de câncer dela, na calota craniana, foi o 11o a ter cura no mundo inteiro. A notícia foi uma tremenda surpresa. Pelo protocolo, ela teria de ter feito pelo menos 56 sessões de quimioterapia, mas se curou na 48a. Quando finalmente esse martírio chegou ao fim, Maria Fernanda tinha 11 anos. A doença não afetou seu desenvolvimento — quem faz quimioterapia pode ficar estéril e não crescer muito. Mas minha filha mede 1,68 m de altura e tem o aparelho reprodutor perfeito. Está noiva e cursa o quarto ano da faculdade de direito. As únicas sequelas são um problema na mandíbula, que ainda trava de vez em quando, e a visão, afetada por seis graus de miopia e hipermetropia.
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Eu mudei bastante depois dessa experiência. Meu casamento acabou há poucos meses. A doença da nossa filha fez com que começássemos a nos ver mais como amigos do que como um casal. Também sinto que sou menos fútil. Embora tivesse contato com esse tipo de tristeza, a dimensão exata dessa dor ficou palpável quando aconteceu comigo. Hoje sei que cada um de nós tem uma missão aqui. Continuo ajudando famílias de crianças com câncer e a Maria Fernanda entrou nessa comigo. Como minha dor durante essa luta foi silenciosa, minha válvula de escape foi escrever um diário. Ele virou um livro e vai ser distribuído nas instituições que ajudo. Quero que outras mães não deixem de acreditar que seus filhos podem sair vivos e saudáveis desse sofrimento.”

2 comentários:

Vera Lúcia disse...

Olá ANALUZ,
Fiquei emocionada com o sofrimento e a luta desta mãe.
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